O quadrado cheio de espelhos

A sala ainda é a mesma: um imenso quadrado com chão de madeira e forrado de espelhos e barras de balé. O som continua naquele cantinho onde minha professora colocava a música e berrava, contava e elogiava nossos passos desajeitados.

Mas hoje, no centro da sala tem um tablado onde fica o professor de pilates, mas a maior mudança ainda não é essa. A transformação significativa está no espelho velho,  no reflexo da menina que dançava balé.

Há 20 anos eu pisei lá pela primeira vez com meu collant rosa e uma vontade imensa de dançar. E por 13, assim permaneci. Cresci, engordei alguns muitos quilos, comecei a usar óculos, alisei o cabelo, usei aparelho, desisti de alisar o cabelo. Conheci amigas aos 5 – e que trago até hoje – moldei meu corpo, minha cabeça, emagreci e me tornei uma típica adolescente cheia de sonhos, amigos e desejos.

E continuei dançando. Nunca foi profissional, nunca foi clássico, mas sempre foi com o coração. Todas minhas segundas, quartas e sextas eu esperava o momento de entrar naquela sala, encontrar minha professora, conversar com as minhas amigas e dançar. Às vezes o objetivo era mesmo a aula e as apresentações. Em outros eu contava os minutos para fofocar e de vez enquando a meta eram as abdominais no fim da aula – quando vi que poderia ter uma barriga saradinha e me matriculei na academia.

Mas houveram, também, momentos em que eu queria mesmo era que a aula acabasse para eu encontrar meus novos amigos, os gatinhos que iam me ver na apresentação de fim de ano, a turma que eu passei a fazer parte. E com a dança, naquela sala, entre um collant rosa, um macacão preto, rabo de cavalo e fantasias um tanto quanto estranhas, 13 anos se passaram e o balé ficou para trás. As tardes livres, os problemas imensos com as provas de matemática e o sofrimento porque quem eu queria não me dava bola. Depois do balé veio o cursinho, vieram as primeiras responsabilidades e novos objetivos. Houve até a época rebelde em que eu achei que dançar era uma grande besteira, um grande mico e foi assim que aquela sala com chão de madeira ficou no passado.

Agora  a imagem que eu vejo no espelho é de uma mulher  que saiu da adolescência, conheceu outras pessoas, riscou algumas e manteve outras. Uma mulher com objetivos profissionais ainda meio indefinidos e mais uma vida inteira pela frente.

No espelho vejo que tudo mudou, mas quase nada se alterou realmente. A paixão é a mesma, os desejos ainda são fortes e a mudança na aparência – apesar da falta dos óculos e da ausência do collant – também não foi tão radical assim. A sala continua lá, e eu, de uma maneira ou de outra, ainda continuo fazendo parte dela.

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2 comentários sobre “O quadrado cheio de espelhos

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